Artigo Científico produzido para disciplina de TECNOLOGIAS SOCIAIS do curso de mestrado - PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO SOBRE EDUCAÇÃO INCLUSIVA: ANÁLISE DE TEXTOS DO MEC

 

PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO SOBRE EDUCAÇÃO INCLUSIVA: ANÁLISE DE TEXTOS DO MEC

 

Eliane Schreiber*

https://orcid.org/

0009-0006-4227-9419

Todos os direitos reservados a autora

 

 

 

RESUMO

 A Inclusão da criança/adolescente em sala de aula é um direito garantido por lei. A Inclusão exige uma Pedagogia que reconhece as diferenças e faz as adaptações necessárias que o que individuo aprenda e se desenvolva integralmente. O conhecimento produzido sobre Educação Inclusiva é vasto, optou-se por analisar três textos disponibilizados pelo Ministério da Educação de forma impressa e no site do MEC, textos que os professores têm fácil acesso e pode se fazer uma análise crítica sobre seus conteúdos.

 

 

PALAVRAS CHAVES

 Produção de Conhecimento – MEC – Inclusão

 

1 INTRODUÇÃO

 

A inclusão das pessoas com deficiência em sala de aula é um direito garantido em lei, dês da constituição de 1988, quando ela menciona que a educação é um direito de todos e visa o desenvolvimento da pessoa de forma integral.

As crianças e adolescentes com deficiência estão em sala de aula. O autor Celso Antunes (2008) já alertava que a Inclusão era o nascer de uma nova Pedagogia: que aceita que os seres humanos são diferentes, aceitação que a mente e o corpo não são partes distintas; que os domínios dos conhecimentos humano são uma meta construtora de verdades, da beleza e da solidariedade, com conhecimentos interdisciplinares e sem hierarquia de importância; a certeza que nenhum aprendizado pode se isolar da sua aplicação na vida em comunidade.

O presente artigo tem a intenção de observar o tipo de conhecimento produzido pelo Ministério da Educação (MEC), analisando três livros lançadas com a diferença de alguns anos.  O primeiro texto é “Educação Inclusiva: A Escola de 2004” que possui trinta páginas. O segundo texto “Saberes e práticas da inclusão: Recomendações para a construção de escolas inclusivas de 2006”, com noventa e oito páginas. E o terceiro texto é o Educação Infantil: Saberes e práticas da inclusão de 2006.

A relevância de se observar esses documentos é que eles estão disponíveis no site do Ministério da Educação, que se pode deduzir que não estão obsoletos e são para o acesso do publico em geral.

Os mesmos textos estão disponíveis nas Creches/CEIS e Escolas publicas de todos Brasil. Quando foram lançados eles foram disponibilizados em formatos de livros e chegaram nas instituições com as caixas de livros enviados pelo MEC e fazem parte até hoje das bibliotecas de estudos de professores e especialista. Possivelmente esses materiais continuam sendo utilizados para embasar práticas pedagógicas.

Para fazer a análise desse material será utilizado o autor Celso Antunes com o livro “Inclusão: o nascer de uma nova pedagogia” (2008) e o livro “Inclusão Escolar” (2006) de Maria Teresa Eglér Mantoan e Rosângela Gavioli Prieto, ambos os livros chegaram as escolas pelo programa FNDE e PNBE.

 

 

2 INCLUSÃO ESCOLAR E PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO DO MEC

 

A Inclusão é um fato, ela foi garantida em forma de lei e as crianças e adolescentes com deficiência estão em sala de aula, cabe a todos os atores da educação fazer com que ela aconteça com excelência, visando o pleno desenvolvimentos dos estudantes.

 

Inclusão Escolar

 

                   Para analisar os textos do MEC é preciso conhecer o que outros autores apontam como Inclusão.

                   Mantoan e Prieto (2006) trazem que a Inclusão não pode mais ser ignorada, ela está presente e fazendo pressões para que aconteça uma Educação que reconhece e valoriza as diferenças.

                   Antunes (2008) aponta que com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional em 1996, trouxe as formas estruturadas de organização da educação especial na rede regular de ensino. Para Antunes a inclusão não pode ser refletida apenas como uma lei, ela reflete um novo paradigma educacional. Faz surgir uma educação com novos fundamentos: que aceita que os seres humanos são diferentes, aceitação que a mente e o corpo não são partes distintas; que os domínios dos conhecimentos humano são uma meta construtora de verdades, da beleza e da solidariedade, com conhecimentos interdisciplinares e sem hierarquia de importância; a certeza que nenhum aprendizado pode se isolar da sua aplicação na vida em comunidade.

                   Para Antunes (2008) a educação inclusiva jamais se afasta da pessoa global, se interessa pelo aprofundamento intelectual sem se sobrepor ao emocional, o físico, ao espiritual, ao criativo e ao estético. Os professores precisam acreditar na Educação Inclusiva, tendo como prioridade as relações igualitárias.

                   Nesse sentido a Inclusão é o aluno estar em sala de aula, tendo acesso aos conhecimentos e se desenvolvendo de forma integral. A Escola e professores que organizaram as adaptações necessárias para que o aprendizado aconteça, sempre respeitando as individualidades dos indivíduos.

 

Educação Inclusiva: A Escola – MEC 2004

 

                   No texto inicial “Um Novo Tempo” é apresentado que o acesso de todos a Educação é um direito garantido na Constituição de 1988. O texto indica que as famílias não realizam a matrícula em redes regulares de ensino, por não visualizarem uma organização preparada para atender as pessoas com deficiência. Em 2003 o Ministério da Educação cria a Secretária de Educação Especial com a finalidade de apoiar estados e municípios na tarefa de tornar as Escolas Inclusivas. Compromisso concretizado com a criação do Programa Educação Inclusiva: Direito à Diversidade.

                   O texto se propõe apresentar o papel do município, o papel da escola e o papel da família, desenvolvidos a partir de uma fundamentação filosófica que afirma uma concepção da educação especial tendo como pressuposto os direitos humanos.

                   Nessa introdução entende-se que o próprio MEC entendia que a Educação Inclusiva não estava acontecendo nas Escolas regulares e que necessitava de fundamentos para que acontecesse.

                   No subtítulo A Escola é apresentado a Escola é o espaço no qual se deve favorecer, a todos os cidadãos, o acesso ao conhecimento e o desenvolvimento de competências, ou seja, a possibilidade de apreensão do conhecimento historicamente produzido pela humanidade e de sua utilização no exercício efetivo da cidadania. Ou seja, o desenvolvimento integral dos educandos. É neste espaço que crianças e jovens, têm acesso aos diferentes conteúdos curriculares, que devem ser organizados de forma a efetivar a aprendizagem. Para este objetivo, a Escola precisa se organizar de forma a garantir que a ação pedagógica resulte em uma contribuição para o processo de aprendizagem.

Escola inclusiva é, aquela que garante a qualidade de ensino educacional a cada um de seus alunos, reconhecendo e respeitando a diversidade e respondendo a cada um de acordo com suas potencialidades e necessidades (MEC 2004)

 

                 Nesse sentido a Escola deve se organizar para que todos os seus estudantes aprendam e se desenvolvam. Falar em organização escolar é falar de Projeto Político Pedagógico (PPP), “É nele que se estabelece a ponte entre a política educacional do município e a população”, a perspectiva da Educação Inclusiva deve estar presente nesse documento que reflete toda a organização filosófica e metodológica das instituições. Sua modificação prevê a participação de professores, funcionários, direção e comunidade escolar.

                 Em Gestão Escolar é descrito que o Gestor/Diretor precisa entender sobre a Inclusão, fazer com que as proposições do PPP sobre Inclusão sejam colocadas em prática e busque auxílio fora da Escola se for necessário. A Coordenação Pedagógica é pedida que garantam que a Inclusão é colocada em prática nas salas de aula. O texto menciona que “a escola precisa parar para refletir, analisar e planejar. Precisa, também, desenvolver a prática da avaliação contínua e da promoção de ajustes de percurso, sempre tendo como horizonte o PPP”. Sinalizando que mais do que planejar a Escola precisa agir, coloca a Inclusão como ação.

                 No subtítulo Indicadores aponta-se indicadores para que os gestores consigam visualizar se a Escola é inclusiva. São eles:

 

100% da população de 0-14 anos de idade encontram-se matriculados? 100% da população de 0-14 anos, da região atendida pela escola, freqüentam as aulas regularmente?

 A escola mantém ações conjuntas com órgãos/ instituições/setores da comunidade para identificar demanda oculta (pessoas de 0-14 anos que não estão freqüentando a escola)?

A escola mantém convênios de cooperação com demais setores da comunidade (Saúde, Assistência Social, Transportes, Urbanismo, Cultura, Lazer, Esportes, Empresas, Conselho Tutelar, Conselho de pessoas com deficiências, comunidades religiosas, etc.), para atender necessidades de seus alunos?

A escola mantém projetos em parceria com instituições financiadoras da comunidade?

 A escola estimula a participação da O Conselho de Escola está formalmente constituído?

O Conselho de Escola é atuante e participativo na vida da escola?

A escola oferece regularmente programas para a família (escola de pais, pais fazendo arte, etc.)?

A escola está comprometida com o processo de identificação de necessidades educacionais de seus alunos?

 A escola conta com um processo formal e regulamentado para o desenvolvimento de estudo de caso?

A escola conta com um processo formal de identificação das flexibilizações curriculares necessárias para atender ao conjunto de necessidades educacionais especiais dos alunos?

A escola conta com um plano de implementação das adequações de grande porte (com metas a curto, médio e longo prazo)?

A escola tem acessibilidade garantida em todas as dependências?

 A escola adota, como política educacional, a garantia do acesso ao conhecimento para todos?

A escola procura dar respostas às necessidades educacionais especiais?

 A escola conta com uma sistemática formal de suporte para o professor (quem faz, o que faz e como faz)?

A escola conta com um procedimento de acesso do professor ao sistema de suporte disponível? (MEC 2004)

 

                   Ao final do texto a tabela com esses critérios estão disponíveis para que seja preenchido e avaliado a Escola.

                   Analisando na totalidade do texto percebe-se a sua riqueza, o texto é de fácil entendimento, admite que a Inclusão não estava acontecendo, da fundamentos e subsídios para que ela aconteça. Chamou muito a atenção quando é colocado como Inclusão como ação, esse conceito precisa ser mais difundido, a inclusão exige ação, a teoria é existe, precisa ação para acontecer.

                 Estamos em 2024 e quando se fala de Inclusão a palavra ação ainda precisa ser utilizada para que as crianças não estejam apenas presentes na Escola, mas se desenvolvendo nesse espaço.

 

Saberes e práticas da inclusão: Recomendações para a construção de escolas inclusivas – MEC 2006

 

                   Na apresentação o texto apresenta que a Inclusão está acontecendo e que se entende que a formação de professores é importante para visando a garantia de direito dos estudantes a inclusão com os títulos abaixo listados:

·         Caderno do coordenador e do formador de grupo.

·         Recomendações para a construção de escolas inclusivas.

·         Desenvolvendo competências para o atendimento às necessidades educacionais especiais de alunos surdos.

·         Desenvolvendo competências para o atendimento às necessidades educacionais especiais de alunos com deficiência física/neuromotora.

·         Desenvolvendo competências para o atendimento às necessidades educacionais especiais de alunos com altas habilidades/ superdotação.

·          Desenvolvendo competências para o atendimento às necessidades educacionais especiais de alunos cegos e com baixa visão.

·         Avaliação para identificação das necessidades educacionais especiais. (MEC 2006)

 

 

Os capítulos são divididos em encontros, na primeira página de cada capítulo vem, a finalidade, as expectativas de aprendizagem, o conteúdo e a referência bibliográfica. O capítulo apresenta a organização de um encontro de oito horas, com espaço para leitura, plenária e estudo dirigido. Junto com o texto e a sinalizando os principais pontos.  

Esse documento é subsídio para formação de professores com seis encontro de oito horas, visando fornecer subsídios para os professores para que atuem na perspectiva inclusiva. Pode-se entender que o documento tem a intenção de ser subsídio para que os profissionais tenham acesso ao conhecimento sobre a Inclusão independente da sua formação na área da educação.

As temáticas apresentadas por capitulo são: Familiarizando-se com a Declaração de Salamanca; Refletindo sobre as Consequências Práticas da Declaração de Salamanca Texto: Declaração de Salamanca sobre princípios, política e prática em Educação Especial; Educação Especial e Necessidades Educacionais Especiais Texto: Resolução nº 2, de 11 de setembro de 2001; Currículo Escolar e Adequações Curriculares; Estudando a Relação entre o Desenvolvimento e a Aprendizagem • Textos: O Conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal Pensando Sobre o Processo de Ensino e Aprendizagem; A Diversidade no Contexto Educacional • Texto: Refletindo sobre a Diversidade que Constitui Nosso Alunado;

Um dos capítulos que se destaca é o Currículo Escolar E Adequações Curriculares porque a Inclusão perpassa por adequações/adaptações para garantir que todos tenham acesso ao conhecimento/aprendizado

A escola para todos requer uma dinamicidade curricular que permita ajustar o fazer pedagógico às necessidades dos alunos. Ver as necessidades especiais dos alunos atendidas no âmbito da escola regular requer que os sistemas educacionais modifiquem, não apenas as suas atitudes e expectativas em relação a esses alunos, mas, também, que se organizem para constituir uma real escola para todos, que dê conta dessas especificidades. (MEC 2006)

 

              Esse recorte descreve de forma simples e extremamente relevante de como colocar a Inclusão em prática.

              Com a leitura de ambos os documentos se conceitua o MEC como excelente produtor de conhecimento para Inclusão, ambos documentos de linguagem acessível e riquíssimo em conteúdo. Aliando o conhecimento teórico e como colocá-lo em prática. O primeiro documento mencionava como deveria acontecer e o segundo de como fazer uma formação completa com professores a respeito da Inclusão.

               

 

Educação Infantil: Saberes e práticas da inclusão 2006

 

              Na apresentação do texto é descrito que com o objetivo de alcançar a Inclusão, foi lançado essa coleção para formação de professores que traz temas específicos para atendimento de crianças, do nascimento aos seis anos. Com a intenção que os textos auxiliem na inclusão e nas mudanças de PPP e práticas pedagógicas.  O sumário está dividido da seguinte forma:

 

1 PERCURSO HISTÓRICO: DA SEGREGAÇÃO À INCLUSÃO

 2. EDUCAÇÃO INCLUSIVA: DIMENSÃO SOCIOCULTURAL E POLÍTICA.2.1. Política de inclusão: implicações e contradições 

3. INTEGRAÇÃO E INCLUSÃO, DIFERENTES CONCEITOS E PRÁTICAS? 4. PRINCÍPIOS E FUNDAMENTOS PARA CONSTRUÇÃO DE UMA ESCOLA INCLUSIVA

 5. O PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO E A DIVERSIDADE NA EDUCAÇÃO INFANTIL

6. OBJETIVOS DA EDUCAÇÃO INFANTIL

7. A CRECHE E A PRÉ-ESCOLA COMO ESPAÇO INCLUSIVO

8. A CRIANÇA COM DEFICIÊNCIA: SUJEITO COM POSSIBILIDADES E NECESSIDADES

9. ACESSO AO CURRÍCULO: ADAPTAÇÕES, COMPLEMENTAÇÕES OU SUPLEMENTAÇÕES

9.1. Adaptações pouco significativas do currículo 9.2. Adaptações curriculares significativas

10. INCLUSÃO: CAMINHO PARA UMA PRÁTICA PEDAGÓGICA REFLEXIVA NA EDUCAÇÃO INFANTIL

11. CONSTRUINDO E AMPLIANDO PARCERIAS PARA A EDUCAÇÃO E O ATENDIMENTO ESPECIALIZADOS

12. FORMAÇÃO DE REDE: COMPARTILHANDO INFORMAÇÕES, EXPERIÊNCIAS EXITOSAS E DESAFIOS VIVIDOS NA CONSTRUÇÃO DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA

 

Analisando essa divisão percebe-se a preocupação em apontar aspectos históricos, as políticas de inclusão envolvidas, de diferenciar a integração da inclusão, os princípios para que a escola seja inclusiva, o PPP, as adaptações curriculares e compartilhamento de experiencias que deram certo, mostrando como a Inclusão é possível.  

Na Introdução é descrito que alguns objetivos do texto:

 este documento tem por objetivos: • propor o debate e a análise de alguns aspectos relevantes e contraditórios existentes na implantação da educação inclusiva; • compartilhar dúvidas e inquietações acerca da prática pedagógica; • socializar experiências positivas e dificuldades encontradas na construção de uma educação infantil inclusiva; • refletir sobre o papel da mediação social para a necessária transformação cultural no interior da escola” (MEC 2006)

 

 

                   Nesse sentido percebe-se que o texto se propõe a trazer subsídios teóricos para que a Inclusão aconteça.

                   No capítulo sete é mencionado que a escola como espaço inclusivo enfrenta inúmeros desafios, conflitos e problemas, problemas esses que devem ser discutidos e resolvidos por toda comunidade escolar, professor, direção, pais e especialistas. Os desafios geram novos conhecimentos, novas interações, mudanças na organização e espaço físico e no didático, o que beneficia a todas as crianças.

 

A sala de aula inclusiva propõe um novo arranjo pedagógico: diferentes dinâmicas e estratégias de ensino para todos, e complementação, adaptação e suplementação curricular quando necessários. A escola, a sala de aula e as estratégias de ensino é que devem ser modificadas para que o aluno possa se desenvolver e aprender.

 

 

                 Percebe-se que o texto aponta que a Pedagogia agora precisa ser centrada nas crianças, que a Escola que se adapta e se organiza e reorganiza para promover o aprendizado.

                 No capítulo doze Formação De Rede: Compartilhando Informações, Experiências Exitosas E Desafios Vividos Na Construção Da Educação Inclusiva é apresentado o objetivo deste documento foi de proporcionar aos professores e profissionais da educação a oportunidade de refletir sobre os conceitos, fundamentos, princípios e prática pedagógica para uma educação inclusiva a partir do cotidiano escolar.  As questões apontam para a necessidade de se criar uma rede de trocas de informações, experiências, saberes e reflexões sobre o fazer pedagógico, confrontados com os referenciais teóricos que fundamentam a aprendizagem significativa e a construção do conhecimento de forma coletiva. Sabendo que as dúvidas, as inquietações, resistências e questionamentos sobre como desenvolver projetos para uma educação inclusiva são inúmeros.  Esse é um processo a ser construído por todos na ação educativa.

                 Neste capítulo são apresentados alguns relatos falando sobre a inclusão, três são de pais que matricularam seus filhos e relatam seu desenvolvimento social e aprendizagem. Um relato de dirigentes, uma Secretaria de educação e uma Diretora que que precisaram se organizar para que a inclusão acontecesse na única escola do município. O relato de duas professoras, a primeira comenta que o aluno com deficiência faz com o que professor tenha que estudar, procurar auxílio é desafiador, mas provedor de novos aprendizados. A segunda professora relata a alfabetização de um aluno cego, como ela buscou conhecimento, teve auxílio de coordenação pedagógica e direção, precisou aprender o braile para corrigir a escrita e a criança foi alfabetizada. E o último relato de uma professora Maria da Conceição Dias Magalhães, que por causa de uma doença degenerativa foi perdendo a sua visão ao longo da vida, mas isso não a impediu de se formar como professora e se tornar uma alfabetizadora, que com adaptações necessárias conseguia ter acesso aos que seus alunos escreviam a utilizar o quadro na sala de aula. Por ser um relato emocionante e para não se perder sentido ao tentar explicá-lo segue o escrito:

 

(Vi) vendo a inclusão

Maria da Conceição Dias Magalhães*

 “Sou portadora de retinose pigmentar, doença congênita, que em meu caso foi detectada aos seis anos de idade, aproximadamente. Tinha outros irmãos mais velhos que também possuíam a mesma enfermidade e já faziam controle com oftalmologista, sem nenhuma perspectiva de melhora. Por conseguir escrever nas linhas do caderno, fui matriculada em uma escola comum localizada perto de minha casa. Sendo a retinose uma doença de caráter degenerativo, fui gradativamente perdendo a visão e, em conseqüência, vivenciando um processo de buscas, adaptações, frustrações e conquistas. Minha vida estudantil, até a conclusão do curso de pedagogia, ocorrido em agosto de 1999, se deu em três períodos bem distintos, pois sempre que concluía uma etapa as dificuldades enfrentadas me desanimavam. Assim, concluí o primeiro grau em 73 por gostar de estar na

escola. Retornei em 88 para o magistério por curiosidade. Tinha na época dois filhos em idade escolar e achava interessante alguns materiais ou livros utilizados por eles. Queria entender melhor o processo ensino e aprendizagem pelo qual meus filhos passavam para também poder orientá-los melhor. O curso de pedagogia foi fruto da necessidade de capacitação para uma vida profissional que começava a acreditar possível, apesar de, à época, a retinose pigmentar  já estar em seu estágio final. A crença na possibilidade de uma vida profissional surgiu como fruto de um trabalho

desenvolvido em uma pequena escola que montei no fundo de minha casa em 92, junto com duas colegas de magistério que, como eu, se empolgavam com as obras de Emília Ferreiro, Ana Teberoski, Madalena Freire e outros. Em nossos estudos analisávamos o comportamento de nossos alunos e planejávamos nossas intervenções. Encontrávamos pontos em comum entre o que líamos e a nossa prática, mas esbarrávamos em dúvidas por não termos o embasamento teórico necessário. Em 93 a Prefeitura de Belo Horizonte abriu inscrições para um concurso. Incentivada por minhas colegas de trabalho, me inscrevi e obtive aprovação, entrando para a Rede Municipal

de Belo Horizonte no ano da implantação da Escola Plural, em 1995. Escolhi a Escola Municipal Antônia Ferreira por sua localização, por conhecer alguns de seus profissionais e por ser conhecida por algumas pessoas da comunidade. Confiava que esses pontos ajudariam minha inclusão. Enquanto aguardei minha convocação procurei estudar o Caderno 1 da Escola Plural e

participar de todas as reuniões promovidas pela Prefeitura para explicações junto à comunidade sobre as mudanças da Proposta Plural, que me assustava e me atraía ao mesmo tempo, pois via nela grandes perspectivas de atuação, principalmente pelo trabalho coletivo e flexibilidade na distribuição dos tempos escolares. Pela experiência que trazia, adquirida nos três anos de funcionamento de minha pequena escola, sentia confiança e viabilidade em algumas áreas de atuação, mas me amedrontava imaginar-me em uma sala de aula com um número de alunos quatro ou cinco vezes maior ao que estava acostumada. Sempre pensei que o aprendizado se dá entre “diferentes” e que o aluno cego ou de visão subnormal necessita de orientação de pessoas que enxergam. Por isso nunca me imaginei lecionando para essas crianças, principalmente por saber que são comuns os vícios posturais e dificuldades espaciais que podem ser evitados com a ajuda de educadores que enxergam e não de educadores que possuem a mesma limitação de seus alunos. Na escola Antônia Ferreira recebi o mesmo tratamento que as outras oito colegas que entravam comigo, com exceção da solicitação de uma estagiária que a escola fez logo que soube de minha presença em seu quadro de funcionários. Foi uma época muito complicada, tanto para mim quanto para a escola. Eu, com sonhos, vendo na proposta “Escola Plural” muitos pontos em comum com minha concepção de ensino/ aprendizagem e com a prática que trazia, mas insegura, ansiosa, tentando me preparar para lutar diante de resistências, principalmente em relação a alunos e pais sem terem certeza do que eu poderia oferecer. A escola, por sua vez, embasada em pressupostos maturacionistas e comportamentistas, arraigada à prática seletiva e seriativa e às metodologias muito ligadas ao tecnicismo, via-se “obrigada” pela Rede a repensar sua prática e a mudar sua forma de atuação. Junto a essa “imposição”, recebia também uma profissional que tentava conseguir realizar duas propostas contra as quais a escola apresentava muito resistência: ser possível a escola plural e lecionar não enxergando o que o aluno escreve ou faz. Entre as novatas, uma tinha os mesmos ideais que eu, e logo no contato inicial demonstrou interesse no desafio que eu apresentava. Juntas estudávamos, refletíamos e sonhávamos. O trabalho dividido em trios, como foi feito nos primeiros anos, a parceria com Giane, que almejava a mesma linha de trabalho que eu, e a autonomia permitida pela Escola Plural contribuíram para que eu fosse me encontrando como educadora. Nosso objetivo não era trabalhar conteúdos ou transmitir informações. Assim, buscávamos alternativas e interdisciplinaridade. No primeiro ano, trabalhamos com crianças no final do primeiro ciclo, de idades entre oito e dezesseis anos, remanescentes do ensino seriado. No segundo ano, nossas turmas eram de crianças de nove a onze anos, também no final do primeiro ciclo, que, segundo a escola,apresentavam baixo rendimento e nos anos anteriores haviam passado pelo “período preparatório”, treino da escrita do nome e das vogais. No ano seguinte tivemos a oportunidade de assumir uma turma de alunos novatos, também considerados pela escola crianças imaturas, despreparadas, com comprometimento familiar e poucas perspectivas de sucessos. Em 98, pedimos para continuar o trabalho, ficando com a turma por mais um ano, mas acabei trabalhando sem a companhia de Giane, que se afastou por motivo de licença médica. Em 99, atendendo a meu pedido, a direção me concedeu uma turma de crianças de seis anos. Independentemente da idade das crianças e das disciplinas que assumíamos, tanto eu quanto Giane, com quem desenvolvi parceria, tínhamos sempre o mesmo objetivo: despertar nos alunos o prazer em descobrir e conhecer o mundo que os cerca, entender o significado e a

função daqueles “símbolos grafados” contidos nos livros, placas, muros ou todo lugar por onde elas passavam. Queríamos que elas entendessem principalmente qual o papel da escola, que se sentissem participantes e produtivas, que respeitassem a si e aos outros. Nos anos iniciais, a maior dificuldade foi conciliar o que queríamos e acreditávamos com o que a escola oferecia em relação ao tempo de estudo e planejamento, além de a escola

demonstrar, direta ou indiretamente, a incredulidade no desenvolvimento de nosso trabalho. Para mim, principalmente nos primeiros meses letivos, meus horários de projeto sempre foram de suma importância. Neles, até hoje, fico com alunos individualmente ou em pequenos grupos, nos quais nos conhecemos, avaliamos situações e comportamentos, temos conversas de caráter mais pessoal e/ou com material pedagógico, faço intervenções e mediações de acordo com o objetivo a se atingir. Enfim, é um momento onde a afetividade, o conhecimento e as individualidades são trabalhadas e entendidas. Já em sala, o trabalho é planejado de acordo com esse conhecimento pessoal proveniente de meu contato direto com a turma, com as informações passadas pela estagiária que me acompanha ou pelas outras pessoas que descrevem para mim o que meu aluno coloca no papel. Como vivemos em um mundo extremamente visual, tenho grande necessidade de

adaptações de materiais ou de ajuda humana, no caso de leituras e descrições de produções de meus alunos, o que não é simples, e requer tempo. Assim, aos poucos, fui criando alternativas e adquirindo materiais de apoio. O computador com um programa especial supriu a primeira necessidade: tenho o costume de registrar meus planejamentos, as avaliações que faço dos alunos e de meu trabalho, as atividades que preciso que a estagiária faça ao longo da semana, o que planejei e preciso passar para colegas ou coordenadora, enfim, tudo que será lido por outra pessoa que possui visão e não sabe o braile. As letras móveis, fichas de palavras ou cartazes com braile no verso foi outra adaptação feita para minha maior independência e melhor comunicação junto aos alunos. O gravador e a filmadora foram aos poucos adquirindo funções importantíssimas: tornaram-se materiais atrativos para nossas avaliações e auto-avaliações, pois muitas vezes as leituras eram tomadas pela estagiária e gravadas para que eu pudesse avaliar – não havia criança que não quisesse ler e ouvir (e ver) sua leitura em seguida. Por várias vezes as crianças tiveram a leitura dirigida ou as atividades lidas por sua professora que, de posse do gravador e do fone de ouvido, ia oralizando o que havia preparado. Ter enxergado e estudado escrevendo a tinta me permitiu o automatismo do uso do quadro com certas restrições, que aos poucos também foram fazendo parte de nossas adaptações e de busca de novas alternativas. As crianças, por sua vez, também foram criando suas estratégias de comunicação comigo: quando tinham dúvidas sobre alguma letra ou desenho pegavam em minha mão e a traçavam com o dedo ou lápis, outras vezes pediam que eu pegasse em sua mão para que eu percebesse os movimentos que faziam. Com isso, fui também aprendendo com eles novas maneiras de visualizar o que escreviam, e pude orientá-los. Fui aos poucos percebendo que a falta do olhar “censurador” me obrigava a tornar minhas aulas mais atrativas. A proximidade e os toques físicos, tão comuns entre nós pela necessidade de reconhecimento, contribuíam para avanços, principalmente por serem as crianças muito carentes. Percebi que, ao direcionarem minha escrita no quadro, as crianças também desenvolviam sua lateralidade e ficavam mais atentas ao que eu escrevia, pois ainda hoje tenho dificuldade no traçado de algumas letras. O diálogo aberto e constante com os pais me ajudava a conhecer, planejar e orientar meu trabalho. Hoje, relembrando minha trajetória profissional, percebo o quanto cresci com minhas dificuldades e minhas buscas. O diálogo com a comunidade escolar ou com colegas que não têm a mesma concepção de escola que eu já é mais viável. Tenho me esforçado para aprender a ouvir o outro e expressar minhas idéias para a escola. Mesmo considerando meu trabalho repleto de falhas, criei coragem para apresentá-lo no Fórum Regional em 1998. No Concurso Lúcia Casassanta, em 1999, recebi o prêmio ao apresentar um registro escrito e em vídeo de minha prática e concepções pedagógicas. Lembrando a naturalidade que sempre observei em meus alunos, convivendo com uma professora portadora de uma diferença tão significativa quanto a cegueira, e a carta que recebi de uma ex-aluna, na qual relata que sua atual professora não acredita que ela foi alfabetizada por uma cega, percebo o quanto o nosso relacionamento foi importante Primeiramente pela mensagem contida, e também por ser uma comunicação escrita, com uma seqüência lógica, coerência e conteúdo bem significativos para uma criança, filha de pais analfabetos, fato normalmente considerado um entrave para que as crianças aprendam e usem nossa escrita para se comunicar. Percebo, na fala da professora, que os adultos criados longe do convívio com essas diferenças têm dificuldade de imaginar uma maneira diferente de se viver e aprender.”

* Professora da Escola Municipal Antônia Ferreira, Belo Horizonte, MG.

                

                 A inclusão ela tem como objetivo o desenvolvimento integral da pessoa com deficiência. A professora Maria da Conceição Dias Magalhães é um símbolo do que a inclusão deve alcançar, uma mulher que se formou e conseguiu o trabalho na sua área de formação, as adaptações estruturais foram feitas a inclusão aconteceu. Sua narrativa é emocionante porque mostra como é possível, não se trata de uma utopia, mas de um objetivo a ser alcançado.

              Após a leitura a leitura dos três documentos se entende por que eles ainda estão disponíveis no site do MEC, porque eles trazem conhecimentos pertinentes, mesmo vinte anos após a publicação do primeiro documento e são uma leitura valiosa. Em vinte anos a Inclusão avançou, as crianças estão em salas de aulas regulares. Mas ainda se luta com adaptações curriculares, forma de avaliação e desenvolvimento integral dos indivíduos. 

 

3 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES  

 

                   Quando surgiu a problemática de conhecer os conteúdos os conhecimentos produzidos sobre inclusão surgi a curiosidade de saber a quais conhecimentos os professores das escolas públicas têm de fácil acesso, por meio dessa dúvida, foi feito a pesquisa em arquivos disponibilizados no portal do Ministério da educação e foi selecionado três textos para fazer uma pequena análise de suas contribuições.

           

             A inclusão é um direito garantido por lei desde 1988 o documento de Educação Inclusiva: A Escola – MEC 2004 sinaliza que a inclusão não havia iniciado, nem mesmo com a presença das crianças em sala de aula. O documento traz informações para iniciar a inclusão nas escolas. Em contrapartida o documento Saberes e práticas da inclusão: Recomendações para a construção de escolas inclusivas – MEC 2006 é uma formação de professores voltada para garantia de direitos das crianças com deficiência.  O terceiro texto Educação Inclusiva: A Escola – MEC 2004 traz informações teóricas para formação de professores em Inclusão na Educação Infantil, com o diferencial de compartilhar exemplos de êxito.

                   Ao analisar os documentos percebe-se que eles respeitam as leis referentes à inclusão, estão de acordo com autores como Celso Antunes (2008) e Mantoan e Prieto (2006), preocupam-se em fornecer fundamentação teórica e são voltadas para prática para que sejam conhecimentos colocados em prática não como receitas prontas, mas como sugestões a serem utilizadas.

Os três textos citados são de excelente qualidade, fácil leitura e entendimento, porque trazem o que é a Inclusão e formas de colocá-la em prática. Espera-se que muitos educadores tenham acesso a esses textos, porque eles contribuem para enriquecer a prática. O MEC é um excelente produtor de conhecimento sobre Inclusão Escolar.

           

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

ANTUNES, Celso. Inclusão: o nascer de uma nova pedagogia. 1. ed. São Paulo: Ciranda Cultural, 2008.

 

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF, Senado. 1998.

 

BRASIL, Ministério da Educação. Educação Inclusiva: A Escola. v. 3. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2004. Disponível em:

http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/aescola.pdf . Acesso em: 14/04/2024

 

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MANTOAN, Maria Teresa Eglér. PRIETO, Rosângela Gavioli. Inclusão Escolar: pontos e contrapontos. São Paulo: Summus, 2006.

 

 

 

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